“Para vencer o vício, tive que substituir o desejo de consumir álcool e drogas pelo desejo de ser uma pessoa melhor.”
Myke Tyson

 

Por que a pessoa se torna dependente de “drogas”?

As drogas acionam uma parte do cérebro chamada “sistema de recompensa”, responsável por receber os estímulos de prazer e transmitir essa sensação para o corpo todo. Elas provocam uma ilusão química de prazer que induz a pessoa a repetir seu uso compulsivamente.

Para quem está de fora fica difícil entender por que o usuário de drogas, mesmo com a saúde deteriorada, não abandone o consumo. É importante sabermos que este comportamento reflete uma disfunção do cérebro. A atenção do dependente se volta toda para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga. Perdem o significado todas as fontes naturais de prazer e, só interessa, aquele imediato propiciado pela droga. Se existe a possibilidade de prazer imediato, por que investir em outro que demande maior esforço e empenho? A droga perverte o repertório de busca de prazer e empobrece a pessoa. Comer, conversar, estabelecer relacionamentos afetivos, trabalhar são fontes de prazer que valorizamos, mas não são imediatas.

 

Por que uma pessoa se torna dependente e outra não?

A dependência química é uma doença. Assim como duas pessoas expostas ao vírus da gripe podem responder de forma diferente, onde uma fica apenas levemente resfriada e outra gravemente gripada, alguém exposto à uma droga pode nunca mais procurá-la; enquanto outro, se torna rapidamente dependente. Isso varia conforme a vulnerabilidade genética, o estado psicológico e os estímulos ambientais.

Muitos estudos buscam identificar características que predispõe um indivíduo a um maior risco de desenvolver abuso ou dependência. Mas até o momento, só foram identificados fatores facilitadores, tais como a presença de doenças psiquiátricas (ex: transtornos de déficit de atenção, ansiedade social), falta de monitoramento dos pais, ambiente com maior disponibilidade às drogas.

Por outro lado, sabe-se que são condições de proteção: religião, controle da impulsividade, supervisão dos pais, bom desempenho acadêmico, políticas sobre drogas.

 

Como é o comportamento de uma pessoa com dependência química?

Os indivíduos passam a apresentar comportamento diferente do habitual, caracterizado por:

  • Desejo incontrolável de usar a substância, por isso, pode mentir ou esconder fatos;
  • Perda de interesse em coisas essenciais como relacionamentos afetivos, trabalho, etc.
  • Perda de controle (não conseguir parar depois de ter começado);
  • Necessidade de doses maiores para atingir o mesmo efeito obtido anteriormente com doses inferiores;
  • Sintomas de abstinência, quando fica sem a droga; como por exemplo, sudorese, tremores, irritabilidade, agressividade;

Aos pais de adolescentes é preciso estar atento a três fatores, que combinados, são sinais de alerta e requerem algum tipo de acompanhamento:

  • O primeiro é atitude por demais tranquila do adolescente que considera a maconha inofensiva e destituída de inconveniências;
  • Depois, é importante considerar a rede social em que está inserido. Os amigos com quem convive são usuários da droga?;
  • Por último, deve-se avaliar seu desempenho nas atividades cotidianas.

 

01_dependenciaA pessoa com dependência consegue parar sozinha?

Em geral, os dependentes químicos guardam uma longa história de abstinências e recaídas. Não é impossível parar sozinho, porém, o psiquiatra pode prescrever medicamentos que ajudam a diminuir a fissura e a combater os sintomas da abstinência, como irritabilidade, ansiedade, insônia, depressão e às vezes até crises convulsivas, aumentando as chances de sucesso.

 

Como é o tratamento?

O tratamento é variável para cada pessoa, depende das características pessoais (idade, suporte familiar e social, etc.), da quantidade e padrão de uso e se já apresenta problemas de ordem emocional, física ou interpessoal decorrentes desse uso. Deve contar com acompanhamento a médio-longo prazo para assegurar o sucesso do tratamento, que varia com a gravidade da doença.

O principal é a mudança de estilo de vida. Por exemplo, evitar locais e situações que sejam associados ao uso, (re)aprender “fontes de prazer” que não as que estejam relacionadas ao consumo – geralmente, pessoas com problemas com drogas afastam-se de todas as formas de lazer, hobbies, relacionamentos, etc, e retomar a uma vida “careta” pode ser uma das tarefas mais difíceis no processo de recuperação.

Não podemos afirmar que há uma cura para a dependência química. Ela é uma doença crônica, porém, totalmente passível de tratamento. Vale ressaltar que além de cessar o consumo, um tratamento eficaz é aquele que consegue auxiliar o indivíduo a retomar o funcionamento produtivo na família, no trabalho, na sociedade e no trabalho.

 

Por que a maioria dos dependentes voltam a usar?

Estima-se que cerca de 40 a 60% dos pacientes tem recaídas. É importante frisar que a recaída é parte do processo terapêutico e indica que o tratamento deve ser revisto e ajustado.

Em relação à prevenção de novas recaídas, sugere-se que o paciente mantenha sempre o acompanhamento com profissionais especializados e que sempre avaliem a proposta terapêutica, verificando a necessidade de ajustes. Ainda, participar de sessões de psicoterapia (principalmente com abordagens comportamentais) podem oferecer estratégias para que o indivíduo consiga lidar com situações de alto risco ou forte desejo de consumir a substancia, além de maneiras de evitar e prevenir recaídas.

 

Quando é necessário a internação?

Ficar longe da droga, quando se está disposto a abandoná-la, faz parte do processo de aprendizado. No exato instante em que a pessoa vê a cocaína, seu cérebro começa a preparar-se para recebê-la e dispara um mecanismo que chamamos de craving ou fissura. Isso vale para qualquer droga. Depois que ficou dependente, é quase impossível alguém ver a droga e resistir ao desejo de usá-la. Por isso, na fase inicial do tratamento, aconselha-se que o usuário se afaste completamente de todos esses estímulos, pois ficará menos difícil lidar com o fenômeno da dependência química. Em situações que isto se torna impossível, recomendamos a internação voluntária. Nos casos mais graves, a internação involuntária é a alternativa mais segura. O ideal seria que ninguém precisasse disso, mas a dependência química é uma doença que faz com que a pessoa perca o controle.